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José Serra lidera eleição presidencial 2010 - 20/02/2010
Pesquisas de opinião, feitas com muita antecedência, têm a perenidade das nuvens, já utilizadas como metáfora da volatilidade política pelo falecido Magalhães Pinto há umas quatro décadas.
Mesmo assim, a cada pesquisa, excitam-se os ânimos, como se de sua exegese fosse brotar o resultado definitivo da eleição.
Dentro desse contexto, duas pesquisas recentes desafiam (e confundem) a capacidade analítica dos especialistas. Uma, do Instituto Sensus, publicada antes do carnaval, mostrava José Serra (PSDB) com seis pontos à frente de Dilma Roussef (PT).
Como a margem de erro era de três pontos, alguns analistas proclamaram o empate técnico: se Dilma estivesse três pontos abaixo e Serra três pontos acima, de fato, haveria empate. Mas, e se fosse o contrário?
Ou se simplesmente não houvesse erro? Detalhes desprezados, em troca da certeza antecipada de que o jogo precisa virar. Mais torcida que fidelidade aos fatos.
Eis que, anteontem, o Ibope divulga nova pesquisa, realizada entre 6 e 9 deste mês, com resultados bem diferentes dos apurados pelo Sensus. Nela, Serra tem 36% das intenções de voto e Dilma 25%.
Onze pontos de diferença. Em terceiro lugar está Ciro Gomes (PSB) com 11%, seguido de Marina Silva (PV) com 8%.
Serra amplia a diferença de 5,4 pontos do Sensus para 11 pontos do Ibope. Na simulação de segundo turno, Serra teria 47%, crescendo 11 pontos, e Dilma 33%, crescendo 8 pontos. A pesquisa desfaz todas as exegeses relativas à pesquisa anterior, segundo as quais Serra estaria em declínio e Dilma em ascensão.
Mais: mostra que, em que pese a obstinação de Lula em remover a candidatura de Ciro Gomes, esta serve aos interesses da candidatura Dilma.
Sem Ciro, segundo o Ibope, confirmando pesquisas anteriores (inclusive do Sensus), Serra ganha no primeiro turno, com 41%. Dilma fica em segundo, com 28%, e Marina em terceiro, com 10%.
Há mais. Sem Ciro, Serra bate Dilma no Norte e Nordeste, reduto de Lula: 33% a 31% e 36% a 35%.
Por que então a obstinação de Lula em buscar o confronto Fla-Flu entre Dilma e Serra?
Eis um mistério que Ciro não entende e ao qual não atende. Insiste em candidatar-se, como disse anteontem no programa em rede de TV do PSB.
A idéia fixa numa eleição plebiscitária, que confronte as administrações de FHC e Lula – e não os projetos de Dilma e Serra -, foi testada pela revista Veja, que propôs um debate entre os dois.
A resposta de FHC foi sim; a de Lula, não. O ministro Franklin Martins respondeu protocolarmente que Lula, “quando deixar a Presidência e se tornar um ex-presidente, aceitará debater com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso”.
Ora, mas quem insiste em ignorar a condição de “ex” de FHC e trazê-lo para o cenário presente, em condições desiguais (já que o ex-presidente, por ser ex, não dispõe da mesma visibilidade), é exatamente Lula. Não fosse Lula, FHC seria uma figura do passado.
A obsessão plebiscitária, no entanto, está longe de ser o único enigma desta sucessão. Outro, de igual quilate, é a passividade do PSDB diante dos fatos.
Há um ano Serra, mesmo sem fazer campanha, é o mais bem avaliado pré-candidato nas pesquisas, o que não o preserva de desgastantes confrontos internos no partido com o governador Aécio Neves.
O PSDB, bem mais que o PT, expõe Serra a avaliações do tipo “ele não agrega”, “ele não tem jogo de cintura”.
Não bastasse, não move uma palha para defendê-lo quando o adversário o responsabiliza pelas enchentes de São Paulo e deixa de mencionar que os contratempos que infligiram à sua administração foram os mesmos das cidades periféricas, administradas pelo PT.
Essa catatonia partidária pode ser fatal a Serra. Sem comando e unidade partidária, nenhuma candidatura sobrevive.
Pesquisa não garante eleição. Apenas indica tendências, que impõem ação. Nesses termos, a performance de Serra nas pesquisas, em meio ao fogo amigo, é um fenômeno político, que sobrevive aos próprios aliados.
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